segunda-feira, janeiro 24, 2005

beijo luz.

O céu estava tímido,
cobria-se de nuvens tecidas com fios espessos.
Sentia-se assim protegido dos poetas e demais ladrões.
Tantas vezes fora refém de suspiros e canções,
prisioneiro de reflexos, tantas vezes serviram-se
de suas jóias para adornar meninas dos olhos e corações...

Não aconteceria mais...

... se não fosse a mais bela e - ironicamente - intensa das quatro filhas satélites.

Mas havia algo diferente dessa vez.
Não fora terrena a investida , de Lua Cheia partira o flerte .

Um vôo verde de pássaro encantara a mais recente enamorada,
alterou sua órbita , até então inabalável.

Nada mais se poderia fazer, Lua Cheia havia vencido o alvo véu.

Venceria qualquer coisa para tocá-lo ,
brilhar em suas penas ,
penas que pareciam só ter alcançado a prima cor , o tom inato,
depois daquele beijo em forma de luz.

domingo, janeiro 23, 2005

bi po lá.

O dotor dissi pra mãe comu quem achava carambola fresca:
"Bipolaridade , Flor . Bipolaridade !"
Ela balançô a cabeça,
fez ruga di qui intendeu...
mãe tem orgulhu bobo , sorti qui ele percebeu.

Seu José Mário Filisberto e Silva era isperto*,
isplicou cum paciência u que qui Vida tinha,
mas tudu qui ele falô pra ela até us pássaru já sabia.

Assim mesmu continuava sendu pra ela o cantu mais bunitu.

O pai dizia que o mundo é pequenu e grandi,
que o terminadu é o qui dura
que tem coisa feia, que é bunita
que tem mistura qui acaba pura.

Nunca dissero qui era loquice, achavam o pai até sabidu

Choro sorrido , silêncio gritadu
e a mãe implicanu com as mudança de estadu

Purque num pudia , purque qui era erradu ?
Vida é assim ora !
Os opostu juntado.


* Dotor José Mário Filisberto e Silva sempri falava baixin, paricia cuxixá quanu cunversava.
Só aumentava a vós pra dizê qui si fez dotor "Na Capital!". Dizia tê si formado "Com Louvor!"

Devi di sê alguém importanti , apesá de só tê um nome.

sábado, janeiro 22, 2005

seiva moça

Hoje arvorei com fome.
O sol foi meu desjejum.
Riou-se meu corpo a dentro aluando o espaço florbeijado,
já desacostumado à amoras e tulipas.

Estrelas fundindo-se ao flâmago,
borboletaram cócegas no vento afago.
Petalaram-me enfim a sede
já tão orvalhada de cânticos graves.

Seja bem-vinda seiva moça,
ceie-me todo e se demore.

Insaciável é a aurora
Intransponível minha ânsia é.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

sono dilacerante

em batalha com Morfeu,
quase sempre sou derrotado


duelo em que o fio já há perpassado
antes que a culpa de qualquer pecado


brasa nos olhos
aproximando leitos, solos


entendo, ainda que tarde:
Não haverá no fim liberdade


rendo-me então, crente na aurora
que o dia trouxe de volta outrora

lírio em marte

Martírio é junção de letras que semeia o doer .
Culpa etimológica, nào alfabética.
Se acalmasse-se o pulsante e desmolhassem-se as maçãs,
avivassem-se, talvez, pétalas
de um lírio em marte.

dia desses ...

Dia desses vi de longe, um mininu curumim ,
Brincanu cum bem-te-vi que avuava bem baixin
era uns canto, uns assubio , uma purção di barulinhu,
qui elevaru aqueli indio até um daquelis ninhu.
O tempo tinha passaradu , a noite tinha caído
e o erê se perguntava como é qui tinha sido
Ao si aconchegá nas pluma sentiu chegá um perfume,
era as ninfa acompanhada de um montão di vagalume,
pisca-pisca reluzente , parecia as estrela ,
que descia lá du céu pra qui ele pudessi vê-las.
Ele intão cum um sorriso , à floresta agradeceu,
abraçô Tupã e a terra e tombô, disfaleceu .
Todos foro adormecenu, e suminu divagar
As fadinha e os vagalume, já num brilhava mais lá.
O silêncio tomô conta , tudo era lindo dimais
De repente nem o índio, lá deitado istava mais.
Num pude sabê seu nome, ele havia sumido
Mas pude ouví uma voz , sussurrá seu apelido
Nunca mais vo isquecê, foi aqui assim pertin
Pra achá aquele erê , era só gritá por Mim.