ontem no metrô um senhor grisalho me encantou.
uma boina cinza clara, óculos sem cabo daqueles que - não sei bem como - ficam presos ao nariz, paletó marrom escuro e uma calça xadrez com tons de verde. ele lia um jornal que segurava apenas com sua mão esquerda. a outra mão estava sobre o fichário rosa de uma menina de cachos castanhos e uniforme. ela pintava as unhas do avô(imaginei) com canetinhas coloridas. ele fazia malabarismos entre aquelas notícias empilhadas e folhas tremendas, usava o queixo pra virá-las, o nariz, tudo pra não interromper a pequena manicure. não tirei os olhos daquela família perfeita durante 7 estações. uma lágrima borbulhava tímida e um sorriso irradiava um algo quente a partir do meu peito. era um pequeno milagre, um êxtase fraterno do qual eu tinha ouvido falar mas não tinha aprendido ainda. o senhor me olhou de repente, me encarou 6 segundos, sério. eu sorri. mas ele não. lembrei de quando tinha 7 anos. era aniversário da minha mãe. tentando uma surpresa resolvi levar café na cama pra ela e derrubei a bandeja na entrada do quarto. não só quebrei parte da louça que ela mais gostava como provoquei com o susto um pico de ansiedade que a fez ir pro hospital com crise asmática. cacos aos pés. em um segundo ele já não lia o jornal, mas a menina ainda tingia suas unhas. quis preservar aquilo. desci 2 estações antes e peguei o carro seguinte. pensei em ser pai.

Um comentário:
Simplesmente lindo. Com suas descrições, pude visualizar você em seu momento e me encantei.
vivi
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