segunda-feira, novembro 03, 2008

bailapso

era carnaval, acho. havia lantejoulas, corpos cintilantes... whisky a meio preço. na caixa de grave, uma versão daquela musica do milton... como era(?)... e uma colombina também, de vermelho, acenando de um dos cantos da varanda, bonita como só colombinas podem ser. como de costume, minhas memórias de pierrot encontram-se misturadas às ficções do meu olhar torto. na verdade acho que sou um cara torto. devia ser meu sobrenome: joão torto. deve ter até certa poesia nisso, mas vai saber... era o 2º baile, e acho que o joão já não era tão sensível como era no tempo do "pra sempre". não apostaria a mão se o perguntassem o que viu no fundo daqueles olhos, tão inconfundíveis e familiares. até o 1º baile, ele diria que algo seu residia lá, algo exclusivamente seu, que nem josés, nem manecos poderiam tirar daquele buraco negro. que desde sempre eram, ele e ela, encontro marcado, eram chave única e fechadura, que ao se encontrarem forneciam acesso a uma dimensão desconhecida, virgem, que nunca seria acessada se não se tocassem. diria que do banco traseiro do taxi que dividiram de volta à cidade, emergiram lábios recíprocos, e também uma memória-corpo, um reencontro muscular completo se entranhando nos dias que viriam a seguir. mas no baile seguinte, nuvens esparsas nebularam a previsão. e do outro lado daqueles olhos de abismo, do lado de dentro, não se sabe se havia de fato aquele alguém, esse com quem a tal memória-corpo fora compartilhada no festejo anterior - memória que ele, por ser-se, poderia ter criado afinal, o que é sempre difícil perceber. me vieram à cabeça os rostos dos palhaços que passaram pela minha infância. eu os achava ridículos na época, e pode haver algo em comum entre nós. pode haver um bobo no espelho. um joão bobo que só quer saber do que pode dar certo, mas que aqui, pendula, sem saber diferenciar. a síntese? há um alarme tocando entre meu tórax e meu abdôme, poucos graus à esquerda. e a sirene - megalofônica - me acusa de ter quebrado um vaso precioso, daqueles de dinastias imperiais, ou sei lá o que. talvez um depositário, onde guardaríamos, eu, o pierrot-joão-bobo, e a colombina-abismo-de-vermelho, o registro dos mais bonitos caminhos cruzados de que já se teve notícia.

então, como desliga?

3 comentários:

Mariana Quintão disse...

nossa, lindo! arrazou!

quem só quer saber do que pode dar certo é realmente um joão bobão

lili disse...

é tão bonito...

Anônimo disse...

que boa sua escrita. bonita. bom ler. muito bom.
obrigada pela sua visita no meu canto.