quarta-feira, abril 02, 2008

Badala a redenção. Nos ponteiros da Central as fatídicas 3 meias-dúzias se transbordam enfim. Os seis acenos do cuco francês, antigo e grave, confirmam a alforria no salão de costura. Não que houvesse realmente o pássaro a sair da casinhola - já velha, quebrada e sem nada que lembrasse a frança - , mas o abano de uma das asas da pequena janela de metal descolorido bastou pra que se pintasse no espaço lúdico a avezinha a grunir: liberté! liberté! Abre-se o portão, alavanca no ponto. Pronto. Em menos de um terço de hora, sem nenhuma baldeação, o par de pernas esguias e bem torneadas - ainda que nenhum outro exercício tivesse sua dedicação - iniciam a subida das teclas da velha escadaria, apenas uma das diversas que (e)levam até Santa Tereza e (e)levariam até o Largo de sua morada. Quase dor nas costas, e ainda assim assobio. Pré-canto, só enquanto essas senhoras estão perto, e então voz. 'Ainda é cedo Amor...'. Muitas e muitas chaves e só uma se esconde. Gradil verde. Quase em casa. Na bolsa grande um pique-esconde sem graça de chaveiro e mãos suadas. Boleto, batom, bombom. Óculos, cigarro, cartão. Barulho de chaves. Chaves... Palpitação e até o perfume de colônia verde através do som-chaveiro. Sua foto em mim, violenta como um tapa bem no meio do rosto do meu sossego. E de repente eu tenho estômago. Vazio. Estômago vazio e esticado estalando em minha nuca, pulsando aquele nada em tudo, logo agora. Com essa luz fraca de ladeira e esse vento frio entrando por gola e mangas. Com esse cheiro que parece jaboticaba, mas que é crisântemo -você dizia.

Nenhum comentário: